Rastreabilidade no setor de frutas, verduras e legumes no Brasil

POR PariPassu

A rastreabilidade é um pilar fundamental para a gestão das empresas e para a cadeia de valor do futuro.

O setor de alimentos no mundo vivencia um processo transformador, dinâmico e veloz com demandas desafiadoras para os agentes participantes da cadeia de suprimento.

Todos são impulsionados a refletirem sobre temas como transparência, compartilhamento, colaboração e segurança. O nível de competitividade entre as organizações é maior e em muitos casos transcende o requisito preço. A composição equilibrada do produto e do serviço é que define a curva de valor percebida entre os elos e junto ao consumidor final.

No Brasil o setor de FLV caminha adquirindo conhecimento, experiência e procurando adequar-se para atender o mercado nacional e internacional.

Dados da Associação Brasileira de Supermercado (ABRAS) informam que no ano de 2016, o setor faturou R$ 348,8 bilhões, sendo que o FLV (frutas, legumes e verduras) representou em média 9,7% das vendas, ou seja, um valor de R$ 29,1 bilhões.

Outra informação significativa é que, os supermercados que conseguiram participação de venda do FLV acima de 9,7%, tiveram impacto positivo de 15% acima da média no lucro líquido da empresa, isto é, saíram de 1,75% para 1,95%. A correlação é direta entre maior participação do FLV na venda e melhor resultado líquido.

Este movimento não é recente e teve como precursor, na década de 90, o Grupo Carrefour com o Programa Garantia de Origem. No ano de 2009, o Grupo Pão de Açúcar apresentou o Programa Qualidade desde a Origem.  E, também neste período, o Walmart lançou o Programa Qualidade Selecionada Origem Garantida.

No ano de 2012, a ABRAS, suas Associações Estaduais e parceiros do setor, apresentou o Programa de Rastreabilidade e Monitoramento de Alimentos, o RAMA, baseado nos pilares de rastreabilidade colaborativa, monitoramento de agrotóxico, cobertura coletiva dos resultados e uma política de correção para acompanhar as inconformidades e a adoção das Boas Práticas Agrícolas.

O Programa RAMA traz uma referência convergente de ação da cadeia varejista, seus fornecedores e produtores, propondo a adoção de padrões internacionais, neste caso tendo a GS1 Brasil como parceira, para garantir a comunicação estruturada da informação do caminho e da qualidade do alimento comercializado entre as partes.

Percebe-se que há cerca de 5 anos  o setor amplia, avalia e valida as metodologias. Ganha, assim, confiança e experiência para posicionar quais as alternativas mais aderentes à realidade do país.

Há oportunidade de padronizar a rastreabilidade no Brasil

Neste ambiente, um início de coordenação da cadeia de FLV ativa outra demanda interessante que apoia-se em critérios de rastreamento: a certificação. Produtores e distribuidores se sensibilizam sobre a necessidade de documentar e ordenar seus processos usando a certificação, de terceira parte, como validador oficial de reconhecimento. No Brasil, temos ainda poucas empresas certificadas.

Segundo dados oficiais do GlobalG.A.P. são cerca de 1.100 empresas. Quando comparamos a realidade nacional com outros países como Peru, Chile e Equador temos menos da metade de certificados que os mesmos.

De acordo com dados da Nielsen¹, o ano de 2016 foi marcado por uma forte retração de volume para todos os modelos de varejo, com exceção para o Cash & Carry.

A sensibilidade é alta para variação de preço, porém, com o otimismo dos ajustes das contas do governo em 2017, o consumidor já apresenta disponibilidade para a compra, sendo a categoria de produtos saudáveis responsável por 38% para o crescimento em valor do mercado.

Ao invés de apenas um requisito de negócio, a rastreabilidade pode levar a uma gestão de negócios mais eficaz

Uma forma simples e de baixo impacto financeiro para organizar e comunicar a cadeia de forma integrada é a adoção da rastreabilidade.

Rastreabilidade deve ser entendida como um meio e não o objetivo final de toda a operação. A execução estruturada dos controles para a rastreabilidade permite ao fornecedor dar visibilidade do seu processo e do seu produto a quem for de interesse e, caso este cliente/ elo colabore na continuidade do registro das informações, a visibilidade é estendida às demais etapas da cadeia produtiva.

A adoção da rastreabilidade, em nível mundial, para a cadeia de alimentos perecíveis iniciou-se de forma compulsória, exigida por lei ou demanda comercial. No entanto, empresas que adotam os controles internos dos processos, percebem o benefício da informação estruturada, e passam a ter indicadores básicos sobre o seu negócio.

Não existe rastreabilidade sem gestão. E não tem gestão sem controle”.

A relação entre estes conceitos e práticas é intrínseca. É preciso ter controle documentado dos processos para haver condições de aplicação de um sistema de rastreabilidade e por consequência, gestão estratégica, tática e operacional do negócio.

Ainda segundo os dados da ABRAS (Balanço Programa RAMA, 2017), a cobertura dos produtos rastreados pelos varejos participantes (total de 44 supermercados) é de 20,5%. Em 2017, o volume total rastreado foi de 1,22 milhão de toneladas. A meta até o ano de 2020 é atingir a cobertura de 30% do volume nos varejos associados.

No Brasil, a sequência cronológica para a adoção da rastreabilidade seguiu a demanda legal vinculada a segurança alimentar, especialmente para os resíduos de agrotóxicos associadas aos processos aplicados ao varejo, posicionamento comercial compulsório.

Mais recentemente, leis específicas refinaram a exigência, como por exemplo a RDC 24 da ANVISA, que exige recall no prazo máximo de 48 horas para alimentos perecíveis. O Código de Defesa do Consumidor no Brasil é um dos mais evoluídos no mundo e é obrigatório o compartilhamento da informação da origem do produto nos locais de comercialização.

Dentro de uma curva normal de adoção de tecnologia, estima-se que exista cerca de 30% de produtores e distribuidores vinculados ao abastecimento dos supermercados, os quais, de fato, após todos os movimentos relacionados à rastreabilidade, decidiram estabelecer como estratégico este tema.

Desafios para rastrear um produto

A implantação de um sistema de rastreabilidade é uma tarefa simples e que pode ser planejada em um modelo evolutivo para cada estágio de maturidade da empresa.

Como qualquer adoção de novo processo, é fundamental haver o envolvimento de toda a organização, em especial da alta diretoria.  Os desafios para a implantação de um sistema de rastreabilidade podem ser classificados em três naturezas distintas:

1. Desafio Técnico

2. Desafio de Capacitação

3. Desafio de Prioridade

O Desafio Técnico está diretamente relacionado à disponibilidade de infraestrutura de telecomunicação de dados nos locais onde os produtos são rastreados, colhidos, processados ou embalados.

Muitos locais, principalmente propriedades produtoras, ainda não possuem acesso à internet ou mesmo uma linha telefônica para transmissão de dados. De maneira geral, os sistemas podem ser utilizados em modo off line, porém, em algum momento, será necessário transmitir a informação para o compartilhamento junto aos pares da cadeia.

O segundo desafio é da Capacitação. Muitas propriedades ou participantes da cadeia de suprimento têm a infraestrutura técnica disponível para acessar um sistema de rastreabilidade em tempo real, mas não dispõem, dentro de sua equipe operacional, de pessoas dedicadas e/ou capacitadas para operar o sistema e realizar os lançamentos adequadamente.

Isso pode gerar perda de informação, informação incompleta e, potencialmente, informação incorreta, comprometendo o processo e a credibilidade da própria empresa ou produtor participante.

Por fim, o desafio da Prioridade demonstra-se, até o momento, como o de maior dificuldade a ser transposto. Pensando em cobertura de abastecimento, existem muitos produtores e distribuidores que não reconhecem o benefício dos controles associados ao rastreamento.

No Brasil, estima-se que existam cerca de 3,5 milhões de unidades produtivas com atividades em FLV. Considerando-se os programas nacionais e seus fornecedores, a cobertura deve representar cerca de 1% de toda a base produtiva. O desafio é ampliar para ter significância.

Como futuro, e breve, a rastreabilidade será parte de um conjunto de processos executados para garantir a gestão estratégica do negócio. Não será a atividade fim, como ainda configura, mas sim, atividade meio para as empresas controlarem e acompanharem seus indicadores de performance.

Fonte: Nielsen, Retail Index. T. Brasil Exp. Geo, Cesta Saudáveis – 26 categorias – Ano Móvel – Até DJF 2016;

+ Conteúdos

Baixe agora nosso ebook gratuito e saiba quais são os benefícios da integração dos processos de rastreabilidade e qualidade de alimentos.

Deixe o seu comentário

Artigos Relacionados

  • PariPassu

    Desenvolvimento da Cadeia de Suprimentos: entenda o que significa

    continue lendo
  • PariPassu

    10 fatos que você precisa saber sobre rastreabilidade de produtos

    continue lendo