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O que são Fraudes Inteligentes em Alimentos?

Escrito por Ligia Malta | 29/08/25 21:02

Nesse artigo, a autora Lígia Malta, Engenheira de Alimentos especialista em Gestão da Qualidade e mais de 10 anos de atuação na indústria de alimentos e bebidas, apresenta uma análise sobre fraudes inteligentes na indústria de alimentos. Com experiência como auditora das normas FSSC 22000, BRCGS e IFS Food e instrutora oficial IFS Food, a especialista aprofunda conceitos de substituição isotópica e fraude enzimática. Confira! 

Substituição Isotópica e Fraude Enzimática

A fraude de alimentos é um desafio para a indústria e compromete a confiança do consumidor.

As fraudes podem ser classificadas como:

  • Adulteração

  • Substituição

  • Rotulagem incorreta

  • Falsificação intencional com o objetivo de ganho econômico 

Com o avanço de controles de detecção, as fraudes estão se tornando cada vez mais sofisticadas, utilizando técnicas mais complexas e que não sejam detectadas pelos controles de rotina.

Substituição Isotópica: Como Funciona a Fraude

A substituição isotópica é uma técnica sofisticada de adulteração, onde é realizado a alteração da composição isotópica de um ingrediente ou produto com o objetivo de enganar métodos analíticos que verificam sua autenticidade.

Identidade Química dos Alimentos

Os alimentos possuem uma identidade química ou impressão digital, baseada em sua composição atômica composta por nêutrons, prótons e elétrons.

Átomos com o mesmo número de prótons, mas diferentes números de nêutrons, são chamados de isótopos.

Como a Impressão Digital é Analisada

A impressão digital dos alimentos pode ser analisada através da Espectrometria de Massas por Razão Isotópica (IRMS), que consiste em:

  • Conversão de uma amostra sólida ou líquida em gás sob alta temperatura (combustão ou pirólise).

  • Separação dos gases por cromatografia gasosa.

  • Transferência contínua para um detector, que mede a impressão digital isotópica da amostra.

É possível determinar se um produto é genuíno utilizando isótopos de:

  • Carbono

  • Nitrogênio

  • Enxofre

  • Oxigênio

  • Hidrogênio

Por exemplo:

  • Carbono-12 (¹²C) e Carbono-13 (¹³C) são isótopos do carbono.

  • O hidrogênio (H) tem três isótopos:

    • ¹H (hidrogênio comum ou prótio, com apenas um próton)

    • ²H (deutério, com um próton e um nêutron)

    • ³H (trítio, com um próton e dois nêutrons)

Podemos verificar na tabela abaixo exemplo de isótopos utilizados para fraude em alimentos.

Fonte: Thermofischer

Aplicações da Análise Isotópica

Existem basicamente três aspectos relacionados à análise isotópica:

  • Identificação de adulterações

  • Rastreamento da origem geográfica da produção

  • Verificação de alimentos orgânicos

Exemplo Prático: Fraude no Mel

Um mel autêntico possui um perfil isotópico distinto em relação à razão carbono-13/carbono-12 (δ¹³C).

Alguns fraudadores adicionam xarope de milho, com perfil isotópico similar ao do néctar floral, para evitar a detecção nas análises.

📊 Em 2023, o Ministério da Agricultura e Pecuária realizou a Operação Mel, com análises isotópicas para açúcares C4. Resultado: 8,95% das amostras foram adulteradas.

Na figura a baixo trago a ilustração da utilização de isótopos estáveis como traçadores de origem geográfica. Na situação A, o gado é criado em uma região montanhosa, com baixos valores de δ¹⁸O e δ²H, e alimentado exclusivamente com gramíneas temperadas.

Na situação B, o gado é criado em uma região plana e alimentado com silagem de milho. Apesar do fracionamento isotópico que ocorre no metabolismo animal e que tende a enriquecer os elementos em isótopos pesados, a análise isotópica dos produtos lácteos originados de cada animal permite reconhecer a sua origem.

Fonte: CPMTC – Centro de Pesquisa Professor Manoel Teixeira da Costa, Instituto de Geociências, Universidade Federal de Minas Gerais.

Rastreabilidade de Carnes e Vinhos

As técnicas de análises isotópicas têm sido usadas também para rastrear a origem geográfica de carnes e vinhos.

A manipulação dessas razões isotópicas pode ocultar a real procedência do produto.

A impressão digital isotópica em produtos alimentícios e bebidas é específica para cada região ou processo, permitindo diferenciação com base em:

  • Região geográfica

  • Espécies botânicas

  • Solo

  • Processos de fertilização

Perfil Isotópico em Alimentos Orgânicos

Na produção de alimentos orgânicos, o perfil isotópico é diferente dos produtos convencionais.

Compostos nitrogenados orgânicos resultam em valores de δ¹⁵N mais elevados que os obtidos com fertilizantes minerais.

Fraudadores podem misturar ingredientes convencionais com ingredientes orgânicos reais, de forma a simular autenticidade nos testes laboratoriais.

Fraude Enzimática: Alteração Oculta dos Alimentos

Outro tipo de fraude que vem crescendo é a enzimática. Ela ocorre quando são utilizadas enzimas para alterar a composição de um alimento com a intenção de:

  • Simular uma característica desejada

  • Esconder a adição de ingredientes inferiores

Exemplos de Fraude Enzimática

  • Conversão de amido em açúcar, simulando teores naturais de frutose.

  • Utilização de enzimas para romper proteínas e mascarar a qualidade e maciez de carnes.

  • Uso de enzimas proteolíticas e lipolíticas para acelerar o desenvolvimento de sabor em queijos, simulando um processo de maturação longo e natural.

Esses são exemplos de fraude quando não declarados no rótulo do produto.

Por que é Difícil Detectar?

A fraude enzimática é de difícil detecção porque:

  • As enzimas são altamente específicas.

  • Seus subprodutos geralmente não são identificados em análises de rotina como pH, sólidos totais e brix.

  • Apenas análises mais complexas, como a isotópica, podem detectar esse tipo de fraude.

Como Combater as Fraudes Inteligentes

As fraudes inteligentes são de difícil detecção, pois operam no limite da sensibilidade dos métodos convencionais.

Para enfrentar esse desafio, são recomendadas:

  • Técnicas analíticas combinadas (cromatográficas, isotópicas e espectroscópicas).

  • Avaliação criteriosa de fornecedores.

  • Fortalecimento da cultura de segurança de alimentos.

Preservar a confiança dos consumidores depende da garantia de autenticidade e rastreabilidade em toda a cadeia alimentar.