Saúde visível

Tenho, com muito cuidado, praticado o exercício atento, de respeito à diversidade. Diversidade de tudo: opiniões, ideias, gêneros, cultura, origem e o que mais inventarem.

Faço isto por decisão pessoal, por uma crença que justifica acreditar no poder da multiplicidade do ser humano, na potencialização do resultado, mesmo que caótico, da variedade compondo algo mais justo e equilibrado. Não é fácil para ninguém, mas é a regra contemporânea!

Quando finalizei a leitura do texto Veneno Invisível, o sentimento foi uma mistura de parcialidade e injustiça. Parcialidade de informações e injustiça com milhões de pessoas que trabalham certo e fazem seu melhor para entregar um alimento saudável, seguro, sadio e respeitoso com os princípios técnicos e éticos da agricultura. Pessoas que fazem com responsabilidade o trabalho do dia a dia do Brasil.

Então, neste post seguirei a estrutura lógica do texto referência para facilitar, inclusive, a minha escrita.

Frutas, legumes e verduras são saudáveis. Os vegetais são saudáveis!

Dados estatísticos, nacionais e internacionais, indicam que o Brasil consome 1/3 da quantidade recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Frutas, Legumes e Verduras (FLV).

Eu gostaria muito de ir ao cinema, a uma festa de criança, aeroporto e outros locais do cotidiano e encontrar maior e melhor variedade Frutas, Legumes e Verduras (FLV) disponíveis a população.

A população está engordando e não emagrecendo, mesmo em uma sociedade orientada pela estética do corpo. Estamos comendo errado, precisamos de mais FLV!

Outro aspecto para compartilhar e ninguém me contou, pois converso com muitos produtores: nenhum deles – os que conheço – querem usar agrotóxico.

Agrotóxico é caro, sabemos que tem risco à saúde, é algo a mais na operação de produção que poderíamos viver muito bem sem. Todos os produtores que conheço são favoráveis aos produtos produzidos de forma mais tradicional, se possível, orgânica. Mas, a grande maioria, tem intervenções do ambiente natural que limitam a execução da técnica na sua íntegra.

Não é regra, mas é uma realidade. Fazendo uma analogia, é como em nossa casa durante o verão, em noites com muitos mosquitos: usamos fumaça, colocamos uma tela ou véu sobre a cama das crianças, repelentes naturais, mas se algo dá errado, recorremos aos aerossóis químicos.

Estamos em um país tropical, não é possível nos comparar com países de clima temperado, frio, com inverno intenso. Eu passei dois invernos acompanhando a produção pecuária na Europa, não me lembro de ter visto mosca nesta ocasião.

Nos últimos 10 anos, junto aos nossos clientes, temos acompanhado as análises de resíduos, seguindo o padrão internacional multiresidual, com mais de 400 ingredientes ativos em laboratórios credenciados pelo INMETRO, envolvendo produtores, distribuidores e supermercados em um esforço conjunto para entender o que está acontecendo.

Nunca encontramos um produto proibido nas análises. Os resultados dos limites máximos de resíduos estão em média com 3% de inconformidade e dependendo da região e cultura, os resultados são até menores. Este resultado é semelhante ao índice da Europa.

O nosso dilema são os produtos não autorizados (NA) para as culturas. Este resultado distorce, negativamente, nossa estatística. Mas, mesmo assim, isolamos os ingredientes ativos (IA) das análises, avaliando a cultura, a região e o alvo biológico, na tentativa de ser cirúrgico na ação corretiva. E vejam, em alguns casos, sem causar polêmica, produtos orgânicos também apresentam problemas.

Estamos todos do mesmo lado.

De forma alguma, a intenção é negar que existam problemas, que não existam produtores negligentes. São serem humanos, escolhem seus caminhos. Porém, não somos todos iguais. Não é justo criminalizar na pancada!

A nossa população é sensível ao preço e reage muito positivamente para os preços mais baixos. Se a distribuição de renda fosse melhor, talvez teríamos um pouco mais de facilidade para discutir o assunto valorização.

Porém, o que me impressiona é que antes da renda tem outro aspecto que deveríamos, todos, trabalharmos juntos: a informação correta.

Por exemplo, hoje os produtores que conheço e, reforço, não são poucos, já realizam análises para o monitoramento de resíduos químicos, microbiológicos, utilizam produtos biológicos e adotam sistemas baseados em tecnologia para ajudar a entregar mais valor, não só quantidade. Na etiqueta de um produto embalado já é possível ver a propriedade, a origem e o distribuidor.

O consumidor, através do código de rastreabilidade, pode interagir com os elos da cadeia, em conexão direta e transparente. Nem a indústria automobilística, exemplo de organização e controle de processos, permite esta conexão tão direta. É provável que no Brasil, o setor de FLV tenha sido o que mais e melhor adotou a solução de acesso a informação através do QR Code ou código 2D.

Praticamente, neste processo, a mensagem é “Visitem minha produção, tenho orgulho do meu produto”.

Precisamos e devemos evoluir nas técnicas de produção, nos manejos, nas integrações dos sistemas produtivos e pesquisas acadêmicas. Temos bons exemplos de acordos públicos-privados em andamento para monitoramento, certificação, pesquisa e comunicação.

O produtor, empresário da indústria a céu aberto, está disponível e à disposição para atender aos anseios da sociedade. Por favor, vamos juntos ajudá-lo! Mas, vamos juntos também, ensinar a sociedade a se alimentar corretamente, aumentando o consumo dos hortifrutigranjeiros.

Eu sou fã do Marcos Palmeiras, desde a época da novela Pantanal. Fico entusiasmado ao vê-lo lutando pelo alimento saudável, orgânico.

No último final de semana de maio, em São Paulo, ocorreu a mostra de cinema no Espaço Itaú Cultural. O tema da mostra foi “O que nos nutre”. Dentre os filmes, acompanhei o curta-metragem “Fonte da Juventude”, do Diretor Estevão Ciavatta, marido da global Regina Casé, amiga de Marcos Palmeiras.

Interessante, nas cenas iniciais do filme, dois casos distintos, mas como o mesmo problema: hábito alimentar.

O primeiro, na periferia de São Paulo, um pai e o seu filho, uma criança acima do peso. O pai, vai até a venda e não encontra nenhuma opção de fruta, legume ou verdura. Somente produtos industrializados.

O segundo caso, uma família em um supermercado com dois carrinhos. Um carrinho com a base de compra tradicional da família brasileira e o outro com os produtos da nova fase alimentar: FLV.

O brasileiro precisa aprender as diferenças dos sistemas produtivos. Não precisa pagar mais caro, precisa valorizar quem faz direito, valorizar o setor agrícola e exigir qualidade.

Alimentos biodinâmicos, orgânicos, tradicionais e hidropônicos, são uma saída. Tem ainda os processados e higienizados!

Ainda refletindo sobre as respostas de Marcos Palmeiras, dois aspectos me chamam a atenção. Por exemplo, afirmar que o “produto orgânico é mais ético” e “o agronegócio é sinônimo de transgênico”. Poxa vida, tem muita parcialidade nestas afirmativas!

Tem de tudo em todos os lados. Agronegócio, especialmente o FLV, não é dependente do transgênico. Agronegócio são todos os negócios associados e/ou derivados da cadeia produtiva da agropecuária.

Eu concordo com diversos aspectos citados pelo Marcos Palmeira em sua entrevista, por exemplo, que o consumidor tem que cobrar mais. De fato, a mudança será através da educação, de base, para que as pessoas tenham conhecimento e autoestima para conseguir exigir, o que é de direito em sua vida como cidadão.

Também concordo sobre o marketing, precisamos dele. Mas, apenas uma ressalva: o FLV todo não tem marketing! Precisamos organizar e unir esforços para educar certo e dar liberdade de escolha, valorizando quem estiver fazendo dentro das regras legais estabelecidas.

E mais, concordo ainda com o Marcos Palmeiras que, quem bota comida na mesa é a agricultura familiar! Provavelmente, 90% dos produtores que são nossos clientes, são produtores familiares. Todos começaram seus negócios, a família ainda está na operação com seus filhos e parentes. Teremos uma tarefa tremenda em um futuro muito breve, que será a sucessão destas empresas familiares, mas, este é assunto para outro dia!

Informações sobre alimentos contaminados não são controversas. Basta perguntar ao produtor!

Na PariPassu, estamos acompanhando análises de resíduos desde o ano de 2007. São cerca de 10 mil análises neste período, realizadas em todo território nacional, em mais de 80 culturas diferentes. De forma geral temos um problema, desafiador, a ser encarado: a inconformidade para produtos Não Autorizado para a cultura, conhecido como NA.

Os resultados das inconformidades acima do limite de resíduos permitido (LMR), conforme citei anteriormente, está na casa dos 3%, o mesmo resultado da Europa.

Também somos críticos sobre a mudança da forma de interpretação do resultado por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Por isto, dentro do acompanhamento junto aos nossos clientes, mantivemos a mesma lógica de monitoramento e interpretação dos resultados, como sempre foi proposto pela ANVISA.

Nos resultados que temos acesso, as melhoras são significativas e mais, tem um comportamento mais domesticado, com tendência de aumento da conformidade, pois produtor, distribuidor e supermercados estão focados nas Boas Práticas Agrícolas. Basta acompanhar os programas de auditoria, certificação e desenvolvimento de cadeia propostos pelas associações e empresas privadas do setor, seguindo a mesma lógica internacional.

Não temos problemas de leis, temos em relação à educação.

Temos um problema, grande, de referência e liderança. É histórico! Mas, novamente existem bons exemplos de diálogo entre público e privado.

No estado de Santa Catarina, o governo e as entidades representantes da iniciativa privada estão, ano após ano, conversando e identificando medidas colaborativas para um resultado comum: a qualidade e a segurança dos alimentos in natura.

Este trabalho envolve produtos tradicionais e orgânicos. São 4 anos de trabalho e um modelo baseado no consenso das partes. Excelente! E está aberto para ser conferido.

A cadeia de abastecimento está se organizando, da indústria ao supermercado, em ações que demandaram muito tempo para amadurecer.

Por exemplo, a Associação Brasileira de Supermercados, Ministério da Agricultura, representantes da indústria química, produtores, instituições certificadoras e responsáveis por protocolos, pesquisadores e prestadores de serviço, todos, procurando identificar uma forma viável de transformar os resultados e atender a sociedade.

Determinadas afirmações, baseadas em conhecimento popular, desconstroem o conhecimento e contradizem argumentações. Por exemplo, insinuar que alimentos bonitos são alimentos com muito agrotóxico é demasiado genérico. Não tem sentido. Não podemos, portanto, viajar a Europa e consumir nenhum produto comercializado na Alemanha, por exemplo.

Mas, é verdade, alimentos de época são melhores. O consumidor precisa ter a noção da época dos produtos e os benefícios para o seu consumo.

Também é verdade que precisamos higienizar os alimentos, assim como vamos ao banheiro e lavamos as mãos! Existe o risco das contaminações microbiológicas, que no Brasil, não enfrentamos ainda nenhum grande caso.

Cabinhos, cascas e outras dicas são inconsistentes. Importante é o consumidor exigir a informação de origem!

A cadeia produtiva já disponibiliza esta informação nos produtos embalados e alguns casos nas próprias gôndolas dos produtos a granel. O consumidor pode e deve acessar esta informação, seja no produto tradicional, bem como no orgânico.

Aconselho e incentivo a todos visitarem os produtores, os distribuidores, supermercados e avaliarem, com sua própria opinião, o que acham. Tenho certeza, será uma grande surpresa, positiva e ajudará a aproximar as pessoas.

Temos que trabalhar e exercitar a convergência e o respeito a diversidade!

Compartilho algumas empresas, movimentos e entidades que estão focadas em desenvolver, de forma orgânica, a agricultura do Brasil: Produce Marketing Association (PMA), Programa de Rastreabilidade e Monitoramento de Resíduos (RAMA) da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) e Associações Estaduais; Acordo de Colaboração entre Associação Catarinense de Supermercados (ACATS), Secretaria da Agricultura e Ministério Público de Santa Catarina, Vegetais Saudáveis, Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-USP), Associação Brasileira de Citros de Mesa (ABCM) dentre outros diversos que dia a dia, acordam, transpiram e lutam para fazer e ter um alimento melhor, em harmonia com os elementos naturais e os desejos da sociedade.

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